terça-feira, abril 17, 2007

Os convencidos da vida

"Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.

Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi."

Alexandre O'Neill, in 'Uma Coisa em Forma de Assim'

1 Comments:

At 11:46 p.m., Blogger MEU DOCE AMOR said...

Olá Smog:)))

Convencidos?Há convencidos e CONVENCIDOS.Os letra de minúscula e os de Maiúscula.

Os segundos são necessários,porque são bons,seja na escrita,nas artes...são alavancas para a competividade com sabedoria.Muitas vezes penso:"és convencido/a...espera aí que já te mostro!" Isso ajuda-me,porque obriga-me a melhorar,em vários sectores da minha vida.

Quanto aos primeiros...todos os dias os encontro (deixa-me beber um golito de cervejola que está aqui ao meu lado,para digerir melhor esta cambada).Não os evito,porque dá-me gozo olhá-los e ouvi-los.De seguida faço uma ou outra perguntita e é o espalhanço atabalhoado.Ás vezes costumam vir vir "comer" à minha mão.

Quanto aos da escrita,começo a ler e deixo logo de ler.Tenho mais que fazer.Relativamente aos críticos de cinema...quero lá saber.Vou ver o filme e eu é que sou a crítica do referido(sou convencida? :)),porque interesso-me mais por aquilo que o filme me faz sentir.O resto são balelas(blá,blá,blá)

"eapelhismo lisonjeador"...puro narcisismo que sustenta muita gente que nos rodeia.Partamos os espelhos e teremos sete anos de SORTE.

..."irmãos-em-convencimento..."Então, a união faz a força.Senão seriam totalmente vencidos.Repara numa capoeira cheia de galinhas e de galos... :))) todos inchados...o galo convencido precisa de ser bajulado pela comunidade,senão corre tudo à bicada.É o que acontece no dia a dia.Os Bajuladores são o combustível que alimenta a máquina.

A vaidade não é gratuita? Claro que não.A minha é...quando me alindo ao espelho.Mas lá fora...a vaidade é comprada a peso de ouro.E quantas vezes não se afundam...porque as rendas estão muito caras e os juros são altos.Já para não falar das hipotecas...quem sabe da Alma.E as marcas ...ficam fulos quando aparecem nos chineses.

Quanto às condecorações...aceitam...fica bem e é mais um quadro para encher a sala e provocar danos no Feng-Chui(energia vital que circula em casa para nosso bem estar).Quando não rejeitam,é porque ou não se acham dignos ou são puros republicanos que se lembram que as condecorações fazem lembrar os tempos da Monarquia.Como tal não fica bem.Quanto à utilidade,também é de pensar.Tudo depende dos objectivos imediatos ou até a médio prazo...oportunismo,outro combustível que pode potenciar o turbo da máquina.

As "gaffes"...oh! As "gaffes"...já reparaste que até a palitar os dentes se cometem gaffes?Ora repara quando fores a um restaurante!Quanto mais cá fora!

..."Manobrador"/a ora tocaste na ferida que não sara.Nunca mais.São como as mães!Mas não é difícil dar-lhes na cabeça.Aliás a vida encarrega-se disso,porque nada é eterno.Só a verdade e o amor é que são eternos.

E caem...pois caem...alguns levantam-se...mas achas que continuam a manipular a máquina?Jamais.Os Impérios também caem e nunca se levantaram.O mesmo lhes acontece...e nós temos um papel fundamental nesta parte.Empunhar a espada e fitá~los nos olhos...eles perceberão a mensagem.

E para acabar convencidos= com + vencidos.Com algo serão sempre vencidos.

Belo post o teu.

Beijos sem nuvens...com sol dourado

:))) Agora vou acabar a cervejola...gosto e depois?Prontos!

 

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