segunda-feira, dezembro 24, 2007

se não estivesses














Se não estivesses,
se a concha dos teus dedos
não fizesse vibrar em mim,
gota a gota,
a tua voz,
se não esticasses os braços
sobre um qualquer
espaço
que nunca será nosso,
se o teu sorriso
agora distendido
não se mostrasse todo
nos gestos do amor,
se a tua mão não procurasse
a minha, ou os meus dedos
não pudessem, ainda
que ao de leve,
tocar a ponta frágil dos teus cabelos
escuros,
se eu não encontrasse
em ti o meu olhar,
às vezes,
quando finjo que não vejo
o teu olhar
em mim,
se os dias não fossem
confortados
com a ideia de que existes
sensivelmente existes,
e que, por isso, de alguma
forma, eu sou em ti
a minha forma de existir
- estas palavras, as frases
que as expõem, o poema
em que tudo se articula, no íntimo
sentido que só existe
dentro do poema, tudo o que
é
e, ainda,
o que possa caber em nós, secretamente,
seria uma triste passagem
pelo que resta
e nem os meus olhos, e nem as minhas
lágrimas
diriam o que dizem;
porque a mão que escreve, o seu último
argumento, está
na concha dos teus dedos
e no gemido que atraiçoa
a tua voz.

António Mega Ferreira

2 Comments:

At 2:02 a.m., Blogger MEU DOCE AMOR said...

E se não estivesses...mas estás e deixo um beijinho doce

Adorei esta tua escolha...atraiçoa?

:)

 
At 2:38 a.m., Blogger MEU DOCE AMOR said...

Vá fica lá um bocadito convencido:)

É verdade!Portanto...aqui tudo é bonito.Já que não tenho outra forma de o dizer,deixo aqui o que quero dizer.

Beijinho

 

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