passos em volta

Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está longe e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia está longe e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei com a minha visão, o pressentido segredo das coisas. E é na morte que se principia a ver que o mundo é eterno.
Herberto Hélder

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