O tolo e o sensato
Há muito, muito tempo, havia na aldeia um ancião, o indivíduo mais velho e portanto mais sábio, se é que faz sentido acrescentar a palavra mais à palavra sábio, das redondezas. Eram tempos de sorte para o sábio. Os animais haviam deixado de falar, fazia pouco tempo, presume-se devido ao estado de choque a que foram sujeitos quando o Homem começou a dominar o mundo, e os velhos não iam parar ao asilo.
Quando é conveniente apelar ao sentido de moral que supostamente deverá existir em cada um de nós, poucas estratégias serão tão eficazes como contar uma história. E como qualquer história que se preze deverá ter-se passado há muito, muito tempo, meter um velhote ao barulho, passar-se numa aldeia e encaixar palavras como ancião e sábio. Tornam tudo muito mais credivel. Afinal, nunca ouvi nenhuma história sobre moral (não sei o que é, admito) e portanto, sobre inteligência, protagonizada por um ex-político detido por corrupção, desenrolada a semana passada na área de serviço de Chelas. Qualquer história que tenha moral (definitivamente não sei o que é. Só sei que me irrito visceralmente quando ouço comentários a um filme como tendo moral...) tem portanto de respeitar as regras da antiguidade e da longinquidade. Se for chinesa, óptimo. Se se ficar por qualqu
er coisa oriental, também não é nada mau.Voltemos ao nosso sábio. Um dia dois aldeões perguntaram-lhe - afinal, há outra coisa para que sirva a sabedoria senão para responder a perguntas? - como se distinguia uma pessoa sensata de um tolo.
O sábio sorriu. Não foi um sorriso qualquer, mas sim um sorriso de quem pensa: "Eu tenho resposta para tudo! Sou mesmo bom!" Claro que era um sorriso absolutamente desdentado, coisa que também nos é escondida nessas supostas histórias sobre a moral e portanto, sobre a inteligência. Nunca li nem ouvi nenhuma história sobre a alegada moral em que se incluissem palavras como desdentado! Desconfio que não tornaria a história muito credível.
O sábio reflectiu. Tinha de arranjar maneira de responder à pergunta de tal forma que aqueles saloios entendessem. Entenda-se também que no papel de saloios estamos igualmente nós e toda e qualquer pessoa a quem tenha sido impingida esta ou qualquer história sobre moral e portanto, sobre inteligência.
"Olhais para a Lua" disse o sábio "e apontais, dizendo "Olha! O sensato olhará para a Lua, o tolo olhará para o dedo apontado."
Moral da história:
Não sei. Continuo a não entender o que é isso de moral. Parece-me é que é algo extremamente abundante e bem distribuido. Toda a gente diz ter muita...
Adaptado, se a memória não me falha, de um conto chinês ou uma história qualquer, provavelmente ficcionada, ocorrida por essas bandas.

1 Comments:
Oá Smog:Até que enfim...
Moral é "algo extremamente abundante e bem distribuido.Toda a gente diz ter muita." E é verdade.
A moral é sinónimo de preconceito;e toda a gente tem imenso!E isto está intimamente ligada à sabedoria.
É pois pela sabedoria e pela sabedoria que se criam e conservam os mundos, que se definem os caminhos pelos quais todos nós prcorremos na grande viagem de aprendizado.É pela sabedoria que se consegue encontrar as verdades que nos poderão conduzir à alegria e ao mais formoso de todos os poderes:o de criar.
Mas a educação e os hábitos de vida da quase totalidade das pessoas impedem-nos de estar em condições de conquistar a sabedoria(por isso o tolo olha só para o dedo apontado) porque limitamos o universo aos nossos próprios interesses pessoais, aos utilitarismps materialistas, somos indiferentes e desrespeitosos perante a Natureza, porque bradamos pelos nossos direitos e não ponderamos os nossos deveres....Desta feita estamos de costas viradas à sabedoria e de certeza,mesclados por preconceitos severos(por isso somos tão moralistas...e já não falo do falso moralismo),Portanto o que fazer? É difícil!Talvez reorientarmos a focalização dos valores, de tal modo que seja a compreensão do porquê,como,e para quê da vida.Depois ,abstrairmo-nos de todos os preconceitos acumulados, sejam religiosos, sociais, materialistas, pseudo-espiritualistas, culturais, modas, maneirismos...É preciso aprendermos a ver além dos rótulos, das encenações,pois as coisas verdadeiramente importantes são muito profundas, delicadas e preciosas para se volverem objecto de conversas levianas, exibicionismo gratuito e de cultos de personalidade.
Portanto , é importante sermos sábios porque a utilidade de um homem e de uma mulher depende da profundidade da sua sabedoria, da constância do seu Amor, e da sua força de vontade.Assim poderá ser uma pessoa sensata que "olhara´para a Lua ,porque conseguirá ver a Luz Que Dela Emana e não que ela emana(há diferenças).
Concluindo, as histórias chinesas são muito sábias, com mensagens bastante ocultas, mas não possuem moral, porque:
_ mensagens ocultas são para os sábios
_não têm moral, porque o objectivo é ajudar libertar um indivíduo
_ moral é para os insensatos, cheios de preconceitos...
A SABEDORIA É O ANTAGONISMO DA MORAL E VICE VERSA...
Desculpa o comentário longo,mas sou assim.Quando começo a pensar é difícil parar...parece que falam por mim...
A MORAL É ENGANADORA;NÃO AJUDA NA EVOLUÇÃO DO INDIVIDUO ;É CASTRADORA.
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