quarta-feira, setembro 06, 2006

Os dias-talvez

É certo que o horizonte não é, senão, uma linha imaginária. Embora exista. E que o céu não é um promontório que fica sobre as núvens (mesmo que pareça um braço de terra, impetuoso, que atravessa o pensamento). É certo que quase nada vale por aquilo que parece. E, no entanto, talvez o que pareça vala sobre o quase-nada que lhe falta para ser tudo aquilo que não é.

Nunca nascemos preparados para aquilo que parece. Pelos olhos dos nossos sentimentos, o mundo é branco ou preto, é bom ou mau, é escuro ou luminoso, colorido ou desbotado, fantástico ou tenebroso. Pelos olhos dos nossos sentimentos, existem dias-sim ou dias-não, mas os dias talvez são, certamente, quem domina o nosso crescimento.


Os
dias-talvez fazem-se de tudo aquilo que parece. Não são bons nem maus, nem escuros nem luminosos. São dias. Iguais aos outros. Não são nem fogosos nem pachorrentos. Nem curtos nem intermináveis. Nascem como todos os dias, pela manhã, e adormecem, devidamente com o pôr do Sol. Nos dias-talvez funciona-se, sem que se crie. Olha-se sem que se escute. Ouve-se mas não se vê. Nos dias-talvez as pessoas parecem felizes mesmo que se tolerem. E são bondosas , apesar de maldizentes. São carinhosas, se bem que omissas. Atentas, quando - sobre tudo - sobressai a sua distracção. E argutas, mesmo que mal pensem por si. Nos dias talvez o futuro curva-se ao destino, e a esperança aos ressentimentos que polvilham o passado. Nos dias-talvez não são as novas relações que nos dão um horizonte. Ou o céu. Nos dias-talvez chega-se ao amanhã depois de ser arrumar, com método, tudo o que ficou disperso para trás.

Nunca nascemos preparados para aquilo que parece. Mas aquilo que parece é que domina o nosso crescimento. E quando, algures na nossa via, perscrutamos pelo sim e pelo não dos nossos sentimentos e se vislumbram, sobretudo, os dias talvez, o horizonte deixa de ser uma linha imaginária. Devagarinho, transforma-se num promontório que fica sobre as nuvens. O quase-nada que nos falta para sermos tudo aquilo que não somos parece distante e dispensável. E o céu passa a ser o horizonte de todos os talvez.

É certo que q
uase nada vale por aquilo o que parece. E que, diante de tudo o que intuimos que falta ao que parece, todos nascemos pequenos. E assim permanecemos. É certo que, por vezes, aquilo que parece se sobrepõe (tanto e tanto) aos nossos sentimentos que, sobre a confusão de branco e preto, ou de bem e mal, parecemos grandes e seguros. Mas há um quase-nada que nos leva a escutar e a ver. Nos encaminha para a bondade e para o carinho. E nos torna atentos. Com esperança para o futuro. Basta que, sobre tudo aquilo que parece, aquilo que sentimos encontre, no horizonte de alguém, o céu.

Eduardo Sá




6 Comments:

At 8:33 p.m., Blogger MEU DOCE AMOR said...

Olá: qual Eduardo de Sá? Opintor,nascido no Rio de Janeiro?

O escritorde "Crianças para sempre"?

O psicólogo clínico e analista que diz que "Avida não se aprende nos livros!"?

Já venho...mas tens que dizer.

 
At 11:29 p.m., Blogger MEU DOCE AMOR said...

Complicadas estas palavras, interessantes,mas complicadas.Fazem- me faltar o ar,porque acho-as asfixiantes.

Simplesmente : Escutar e ver,para atingirmos a bondade e o carinho,aqui(no horizonte não...é longe)e que te conduz a um Céu sem nuvens, com sol a brilhar e afastado do nevoeiro.Abre-se a porta para a esperança e um futuro mais risonho.(que complicação !)

jito :))

Doceando

 
At 2:21 a.m., Blogger smog said...

Eduardo Sá, o psicólogo. Aliás, este texto foi retirado duma popular revista publicada recentemente, o que prova que este blog é bastante eclético sempre em busca de uma qualquer insanidade, virtual ou não, que por aí vagueie! :)

 
At 11:57 a.m., Blogger MEU DOCE AMOR said...

:))))

 
At 3:21 p.m., Blogger Ângela said...

A verdade é que nos deixamos levar pelo que parece, ofuscamos os nossos sentidos e refugiamo-nos no talvez...muitas vezes...vezes demais...

 
At 9:32 p.m., Blogger MEU DOCE AMOR said...

Se isso acontece contigo ,porque não baralhas as cartas e naõ vês o jogo modificar-se?

E porque não vais ao meu blog?

E porque fazes tanta confusão no meio de tantas palavras?

Palavras...palavras... confundem-nos as ideias...menos aquelas que vêm de sábios.Todas as outras são lindas ,mas são fruto dos problemas dos outros.

Jito
Doceando

 

Enviar um comentário

<< Home