quarta-feira, janeiro 03, 2007

meteorologia














Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;


Como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas

a voz onde contigo me perdi.


Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse

ao país onde o teu corpo principia.


Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara

singrando largamente no meu peito.


Eugénio de Andrade