segunda-feira, julho 30, 2007

como um eco














Não tinhas nome.
Existias como um eco do silêncio.
Eras talvez uma pergunta do vento.

Albano Martins

domingo, julho 29, 2007

sete luas











Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

Natália Correia

sábado, julho 28, 2007

génese










Desfaço nos olhos o azul do céu, e
deito-o na página, com um brilho de manhã
à mistura. As palavras cintilam, numa
breve alquimia de luz. Depois, voltam
ao primeiro significado, mas o que leio
é já outra coisa. O azul fica envolto
numa espuma de oceano; a manhã
tem a frescura do fruto que se acabou
de colher; a página estende-se até
ao fim da imaginação, onde outros
continentes se abrem. E o rosto que
nela se imprime tem a tua cor, a tua
pele, o vermelho dos teus lábios,
o mármore divino do dia que nasce
quando, nos olhos, desfaço
o azul do céu.
Nuno Júdice

sexta-feira, julho 27, 2007













"Quando se é feliz muito novo, a única obsessão que se tem é aguentar a coisa. Vive-se ansiosamente com a desconfiança, quase certeza da coisa piorar. O pior é que as pessoas que se habituaram a serem felizes não sabem sofrer. Sofrem o triplo de quem já sofreu. É injusto mas é assim.
No amor é igual. Vive-se à espera dele e, quando finalmente se alcança, vive-se com medo de perdê-lo. E depois de perdê-lo, já não há mais nada para esperar. Continuar é como morrer. As pessoas deviam encontrar o grande amor das suas vidas só quando fossem velhas. É sempre melhor viver antes da felicidade do que depois dela."

Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, julho 24, 2007


Ao caminhar pelas areias decidi deixar-te...
Pablo Neruda

domingo, julho 22, 2007

...

i jumped in the river and what did I see?
black-eyed angels swimming with me
a moon full of stars and astral cars
all the figures i used to see
all my lovers were there with me
all my past and futures
and we all went to heaven in a little row boat

there was nothing to fear and nothing to doubt

pyramid song
by Radiohead

sábado, julho 21, 2007

sacred




Running down to a central reservation
In last night's red dress
And I can still smell you on my fingers
And taste you on my breath
Stepping through brilliant shades
Of the color you bring
But this time, this time, this time
Is whatever I want it to mean

If this is where memories are made
I'm gonna like what I see
And everything I ever took for granted
I'm gonna let it be
I step through every shade
Of the color you bring
But this time, this time, this time
Is whatever I want it to mean

And everything and nothing is
As sacred as we want it to be
When it's real
Make it real
Compared to what?

It's like living in the middle of the ocean
With no future, no past
And everything that's good about now
Might just glide right past
I'm stepping through brilliant shades
Of the color you bring
But this time, this time, this time
Is fine just as it is

And everything is sacred here,
And nothing is as sacred as I want it to be
When it's real
Compared to what?

central reservation
by Beth Orton

sexta-feira, julho 20, 2007

ambiguidade














Este esquecer de mim
por bem te querer
este te perder
e envolver nos braços


Este meu dizer e desdizer
de nunca te prender
mas não esquecer que o faço


Este meu delírio
minha febre
este meu medo de saber


Este meu vício
e minha causa
este meu motivo
de não ser



Maria Teresa Horta

quinta-feira, julho 19, 2007

good song

Waiting,
I got no town to hide in
The country's got a hold of my soul
TV's dead
and there ain't no war in my head
And you seem very beautiful to me

Sleeping
but my work's not done
I could be lying on an atom bomb
I'll take care
Cause I know you'll be there
You seem very beautiful to me

It is the rest of your life keeps a rolling and rolling
Picture in my pocket looks like you
It is the rest of your life keeps a rolling,
rolling,
rolling
along

good song
by blur

terça-feira, julho 17, 2007

de súbito


E de súbito desaba o silêncio
É um silêncio sem ti
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos,
Ouço a música das tuas.
Eugénio de Andrade

Lithium...

No need for words...

domingo, julho 15, 2007

implosão


Se pudesse implodia!
Engolia bolas de dinamite para se alojarem nos órgãos certos
E calmamente acendia um cigarro,
Como quem acende o rastilho que precede a implosão.
Não veria a vida passada desfilar ante os meus olhos
Não sentiria arrependimentos
Não sentiria pena de mim em nenhum momento,
Simplesmente aguardaria a implosão.
Há quem se consuma de desgosto
Há quem se consuma de amor
Há quem se consuma de tristeza
Há quem se consuma lentamente,
Eu...
Prefiro a implosão!
A ter de esperar que o tempo passe
A ter de esperar que a vida mude
A ter de esperar que a sorte vire
A ter de esperar o raio que me parta,
O maldito raio que tanto evoco e não cai
E não me vem partir,
E não me reduz a pó,
E não me transforma em nada,
Para nada ter de sentir.
Encandescente

um dia


Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.


Sophia de Mello Breyner

diz-me













Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, julho 13, 2007

branco














Branco como o sol
Branco como o mar
Branco como a ruga
De um remo a boiar
Branco como a sombra
Que à noite projecto
Branco com a linha
Dos fios do tecto
Branco como a língua
O leite a loucura
Os olhos da tarde
Como a arquitectura
Das estátuas gregas
Da areia do tempo
Das nuvens imóveis
E do movimento
Meu eu sem tu
Meu tu sem ninguém
Meu ninguém de sombra
Meu perfil de nada
Meu sem sem sem
Minha madrugada
Perdida esquecida
Achada encontrada
Branca como o sol
Branca como o mar
Branca como um tiro
E nada a sobrar

António Lobo Antunes

quarta-feira, julho 11, 2007

como um


Como um
livro

Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.

Albano Martins

segunda-feira, julho 09, 2007

...

His wicked
sense of humour
suggests
exciting sex!

His fingers
they focus on her
touches
he's venus as a boy

He believes in a beauty
He's venus as a boy

He's exploring
the taste of her
arousal
so accurate

He sets off
the beauty in her
he's venus
venus as a boy

He believes in a beauty
He's venus as a boy
Eternal...

sábado, julho 07, 2007











Sabes quando tudo é tão rápido?

Sabes quando se torna tudo uma espécie de câmara lenta e

Percebes que o tempo também uma consequência do que estás?

O segundo transforma-se.

As emoções perdem o filtro e ganham o tamanho dos sítios

Maiores.

A dor das coisas. O amor das coisas.

O que se ri e o que se grita.

A parte humana de todos. A parte humana do tempo.

Sabes que nunca se pára...

Sabes quando nunca se pára?

Sim... Às vezes apetece descansar os olhos.

Mas pode-se perder tanto num segundo...

Por ser tão humano...


Depois vem a altura em que se quer tudo outra vez

Tal e qual. Antes de se ser adulto ou coisa parecida.

Sabes que nunca se volta a ser o que se era

Porque o tempo tem instrumentos de tatuar

e o segundo não volta igual.

Guarda-se tudo numa caixinha... pequena

Que se abre de vez em quando

e volta-se à noção que no presente.

Quer-se tudo outra vez.


Tiago Bettencourt

sexta-feira, julho 06, 2007

labirinto


Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

Labirinto ou não foi nada
David Mourão Ferreira

segunda-feira, julho 02, 2007

Where the Wild Roses Grow

Creio no mundo como num malmequer...

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca nates eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na Natureza, não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro -O Guardador de Rebanhos-

Prescrição para males de amor












"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;"


Ah Camões
Se vivesses hoje em dia
Tomavas uns anti-piréticos
Uns quantos analgésicos
E Xanax ou Prozac para a depressão
Compravas um computador
Consultavas a página do Murcon
E descobririas
Que essas dores que sentias
Esses calores que te abrasavam
Essas mudanças de humor repentinas
Esses desatinos sem nexo
Não eram feridas de amor
Mas somente falta de sexo.

Encandescente