E os ponteiros que não se movem, E os minutos que não avançam, E o tempo que não passa... Se o tempo sentisse esta angústia corria. Se o tempo sentisse esta ânsia voava. Se o tempo fosse o meu tempo Há muito as horas tinham passado. E os meus passos que são tão pequenos, E o lugar que é tão distante, E o caminho que não acaba E os meus pés que não são asas Para chegar num instante. E o arrastar da demora, E a hora que não chega, E a distância que não acaba, E eu voando sem asas Até onde a minha alma me espera.
Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso.
Não me tires a rosa, a lança que desfolhas, a água que de súbito brota da tua alegria, a repentina onda de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso com os olhos cansados às vezes por ver que a terra não muda, mas ao entrar teu riso sobe ao céu a procurar-me e abre-me todas as portas da vida.
Meu amor, nos momentos mais escuros solta o teu riso e se de súbito vires que o meu sangue mancha as pedras da rua, ri, porque o teu riso será para as minhas mãos como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono, teu riso deve erguer sua cascata de espuma, e na primavera, amor, quero teu riso como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora.
Ri-te da noite, do dia, da lua, ri-te das ruas tortas da ilha, ri-te deste grosseiro rapaz que te ama, mas quando abro os olhos e os fecho, quando meus passos vão, quando voltam meus passos, nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu riso, porque então morreria.
Se eu voltasse a nascer, e as minhas mãos me ensinassem o caminho que vai do coração ao mundo, e os meus olhos me abrissem o círculo que o mar desenha no horizonte, e o meu nariz respirasse a luz que a manhã solta de dentro da névoa, e os meus lábios pedissem o pão de estrelas que as aves trocam entre si, e os meus passos me conduzissem para onde ninguém precisa de voltar, o tecido da minha vida seria transparente como o vidro da janela que não abro, o fio que vou puxando seria eterno como os números que contam os dias de um deus, a tesoura da noite ficaria na caixa que não precisei de abrir. Se eu voltasse a nascer, e as velas do sonho me envolvessem com o linho do seu vento.