terça-feira, outubro 30, 2007

light

domingo, outubro 28, 2007

demora...












E os ponteiros que não se movem,
E os minutos que não avançam,
E o tempo que não passa...
Se o tempo sentisse esta angústia corria.
Se o tempo sentisse esta ânsia voava.
Se o tempo fosse o meu tempo
Há muito as horas tinham passado.
E os meus passos que são tão pequenos,
E o lugar que é tão distante,
E o caminho que não acaba
E os meus pés que não são asas
Para chegar num instante.
E o arrastar da demora,
E a hora que não chega,
E a distância que não acaba,
E eu voando sem asas
Até onde a minha alma me espera.

Encandescente

domingo, outubro 21, 2007

Tu me fais du bien.

Poesia de Marguerite Duras
Música de Erik Satie

teu riso














Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.


Pablo Neruda

quarta-feira, outubro 10, 2007

viagem














Se eu voltasse a nascer, e
as minhas mãos me ensinassem o caminho
que vai do coração ao mundo, e
os meus olhos me abrissem o círculo
que o mar desenha no horizonte,
e o meu nariz respirasse a luz que a manhã
solta de dentro da névoa, e os meus lábios
pedissem o pão de estrelas que as aves
trocam entre si, e os meus passos me conduzissem
para onde ninguém precisa de voltar,
o tecido da minha vida seria transparente
como o vidro da janela que não abro,
o fio que vou puxando seria eterno
como os números que contam os dias de um deus,
a tesoura da noite ficaria na caixa
que não precisei de abrir. Se eu voltasse
a nascer, e as velas do sonho me envolvessem
com o linho do seu vento.

Nuno Júdice

terça-feira, outubro 02, 2007

aconteceu


fez-se um chão enorme no silêncio do corpo

um chão fundo de flores e campas
seco

pequenos espaços em ruínas

e de repente...

um sorriso

nos lábios nasce uma palavra fresca
a pureza no dia em que se morre.

Conta-me as palavras que me dizias
antes de nos conhecermos

conta-me o que dizias
quando as palavras eram mudas

encosta a cabeça na minha mão

e conta-me.

Luis (in Escrito na Areia)