domingo, novembro 26, 2006

Em todas e em nenhuma














Uma singela homenagem.


Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny

olfacto


I'm leaving again...

Saudade...
















Há sempre alguém que nos diz
tem cuidado
Há sempre alguém que nos faz
pensar um pouco
Há sempre alguém que nos faz falta
Ah!.. Saudade



Saudade, Trovante

terça-feira, novembro 21, 2006

Open your eyes II...

Quarto











Tenho à janela
uma velha cornucópia
cheia de alfazema
e orquídeas da Etiópia

Tenho um transístor ao pé da cama
com sons de harpas e oboés
e cantigas de outras terras
que percorri de lés-a-lés

Tenho uma lamparina
que trouxe das arábias
para te amar à luz do azeite
num kamasutra de noites sábias

Tenho junto ao psyché
um grande cachimbo d'água
que sentados num canapé
fumámos ao cair da mágoa

Tenho um astrolábio
que me deram beduínos
para medir no firmamento
os teus olhos astralinos

Vem,
vem à minha casa
rebolar na cama e no jardim
acender a ignomínia
e a má língua do código pasquim
que nos condena
numa alínea
a ter sexo querubim

Bairro do Oriente, Rui Veloso

segunda-feira, novembro 20, 2006

open your eyes


I'll see you in another life...
when we are both cats.

domingo, novembro 19, 2006

A hora da partida














(...como eu odeio as noites de Domingo de Inverno... Sim, penso que odiar é a palavra certa. Valha-me a poesia para preencher estes estados de alma e me enterter na permanente contagem decrescente nos 5 dias que meticulosa e obrigatoriamente esmiuço, na ânsia de que terminem...)

A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sparks...


Did I drive you away?
I know what you'll say,
You'll say
Oh, sing one you know,
But I promise you this,
I'll always look out for you,
That's what I'll do

My heart is yours,
It's you that I hold on to,
That's what I'll do
But I know I was wrong,
But I won't let you down,
I will,
Yes I will

And I saw sparks...
And I saw aparks...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Retrato ardente














No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha

Eugénio de Andrade

Idiotia e Felicidade

(dedicado ao meu "habitat" temporário)

Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota ser proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por força reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: «Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.» E ensinava-me orações que eu, muitas vezes de mãos postas, repetia aplicadamente. Acabei por não me casar com ela.

Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre-Dame e sentir-se, naquele preciso momento, convertido irresistivelmente ao Cristo e à irradiação da sua verdade e da sua beleza? E não pode afirmar-se que o grande poeta fosse um idiota.

Agora a minha parente era-o, de certeza, e queria fazer de mim outro idiota. Não por desejar reconverter-me, mas por aconselhar-me, como meio, o de eu não pensar, o de eu principalmente não pensar. Se tivesse casado com ela (que não era filha da minha lavadeira) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.

Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.
O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.

Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.
Oremos.
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.

Alexandre O'Neill, in 'Uma Coisa em Forma de Assim'

o princípio da incerteza













Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.



Albert Einstein

quarta-feira, novembro 15, 2006

silêncio...









(for her... who knows who she is)

Sonhei contigo
embora nenhum sonho
possa ter habitantes
tu,
a quem chamo
amor,
cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção
a esta palavra.
É verdade
o sonho poderá ter feito
com que, nesta rarefacção de ambos,
a tua presença se impusesse
como se cada gesto do poema
te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus lábios
com o rebordo desta chávena de café já frio.
Então, bebo-o de um trago
o mesmo se pode fazer ao amor,
quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -terra, água, nuvens, rios
e o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência da fontes.
É isto, porém, que faz com que a solidão
não seja mais do que um lugar comum
saber que existes, aí,
e estar contigo
mesmo que só o silêncio me responda quando,
uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice

terça-feira, novembro 07, 2006

leve doce beijo







Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.

Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.

Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.


Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Beijo, Pedro Abrunhosa

sábado, novembro 04, 2006

The Golden Path

quinta-feira, novembro 02, 2006

Chasing cars...(Snow Patrol)

quarta-feira, novembro 01, 2006

Do you want to see the most beautiful thing I have ever felt?