quarta-feira, maio 30, 2007

feeling blue...

domingo, maio 27, 2007

regresso


Depois de algum tempo fora, abri o correio

e tirei o mar de dentro da caixa. As algas

acumulavam-se por entre cartas e publicidade;

e uma onda rebentou nas minhas mãos quando
separei a água e o céu, e a linha do horizonte
me apareceu sob uma espuma de pássaro.





Regresso de viagem, Nuno Júdice

what the hell am I doing here?

I don't belong here...

chegaste.

"Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo, soubemos que não nos tínhamos separado."




José Luis Peixoto
in Antídoto

sábado, maio 19, 2007

gatos

"Há dia, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar."



Pedro Paixão, in Assinar a Pele

quarta-feira, maio 16, 2007

we see what we wish to see...

nenhuma


De todas as coisas nenhuma
É bela como os olhos do meu amor.

De todas as coisas nenhuma

É livre como as mãos do meu amor.
De todas as coisas nenhuma

É forte como o corpo do meu amor.

Por isso das coisas o nome digo
Mas do meu amor canto,
A beleza do olhar com que me envolve
A liberdade nas mãos quando me toca
A força do seu corpo, meu abrigo.
De todas as coisas o nome digo,
Mas do meu amor...

O nome canto.

Encandescente
(Eroticidades)

domingo, maio 13, 2007

exit

where is it?

quinta-feira, maio 10, 2007

a construção do corpo


Sempre a tentativa nunca vã…
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia.
Entre a alma e a luz o movimento é livre.
Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.
No interior centro cálido abre-se a flor da luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.


A Construção do Corpo, António Ramos Rosa

terça-feira, maio 08, 2007

Butterfly effect...

"It has been said that something as small as the flutter of a butterfly's wing can ultimately cause a typhoon halfway around the world"
-Chaos theory-


domingo, maio 06, 2007

Ámen


Aos hipócritas
Aos moralistas
Aos virtuosos e puristas
Aos sacanas
Aos censores
Aos beatos transgressores.
Que um raio os parta a todos.
Ámen.

Aos pedantes
Aos vaidosos
Aos convencidos
Aos pretensiosos
Aos ilustres iluminados,
Luminárias sem pecados
(Gramaticais ou outros que tais).
Que um raio os parta também.
Ámen.

Aos oportunistas
Aos carreiristas
Aos vira-casacas
Aos meias-tintas
Que não são
Nem sim nem não,
(Convenientemente são talvez).
Aos embusteiros
Aos canalhas
Sorriso na venta
Mão na navalha
Que só não te lixam
Se não podem
Ou se não calha.

Porque de todos eles é o reino da terra
Assim como será o reino dos céus.
Que um raio os parta a todos.
ÁMEN.

Encandescente, retirado de Eroticidades

quinta-feira, maio 03, 2007

linguagens














Quando a poesia tem o teu rosto,

e o verso coincide com o número

dos teus dedos, volto a contar a métrica

pelo silêncio duns lábios fechados.


Sinto em cada sílaba a tua pele,
ouço em cada rima um canto de amor;
e se a conta não acerta no fim,

volto à tabuada que me ensinaste.

Ponho o singular do corpo na mesa,
tiro o plural dos olhos do caderno;
divido pelos ombros os cabelos,
somo aos seios o véu que os encobre.

Decassílabo, Nuno Júdice