sexta-feira, março 28, 2008

...














Um dia, em frente ao mar, ele pensou: Se me apagasse neste preciso instante, o mundo pouco se importaria com isso. No entanto, deixaria de ser o mesmo: seria um mundo com todas as coisas que conheci e toquei, mas sem mim. E eu, algures na morte, é pouco provável que levasse comigo alguma coisa do mundo. Seria um homem morto, sem mundo, definitivamente só.

al berto in O anjo mudo

tempo













Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável. Concentrei-me em deixar de ser para poder ser tudo, em esquecer para dominar a existência. Eu sou o tempo; sou nada, o nada veloz e imóvel que molda o corpo do tempo. Deixar de ser é ainda acatar as regras implacáveis do ser. Estou esgotado do correr contra a dor, contra a memória, contra a infância, contra o amor e o ódio. Criei uma meta de tranquilidade que se afasta tanto mais quanto mais corro para ela. Não há paz no instante, e eu vivo de instante para instante. Começo a temer que a paz se alimente do sangue da paixão de que abjurei.


Inês Pedrosa in Fazes-me falta

segunda-feira, março 24, 2008

navio de espelhos


O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


Mário Cesariny

domingo, março 16, 2008

gasto

"Estou gasto. Dei-me sempre mais do que podia. Não há nada que me possam roubar, sou um homem espoliado de todos os bens, de todas as doenças, de todas as emoções. Sou um corpo pronto para a viagem sem regresso. Sou um corpo que se evita, um homem cujo nome se perdeu e cuja biografia possível está no pouco que escreveu. Sou um corpo sem nacionalidade, pertenço às profundidades dos oceanos, ao voo da ave migrante. Sou um alfabeto e não sei se terei tempo para me decifrar.
Lá fora anoiteceu.
São raras as claridades que do meu sangue sobem ao rosto. Há um lume invisível no teu olhar, uma visão que o espelho me revela: cintilam cristais enquanto dormes, uma árvore cresce nos pulmões. Assim construo as paisagens, assim te ofereço a morada de sossego e de prazer. Mas tu não vens, porque me és exterior. Posso criar o universo inteiro a partir das minhas células, só não posso criar-te a ti.
A paixão revelou-se-me no instante em que percebi que sabia quase tudo da vida, mas já não foi possível perder-me na tentação do suicídio. Nunca amei e nunca fui amado: ignoro se isto é verdade.
Que horas serão para lá deste século?
Onde estaremos neste momento?
Estarei eu em ti ou serás tu que me devoras e me comoves?
Teu nome, pronuncia teu nome para que seja impossível esquecer-me do meu. Diz-me o teu nome de ontem, quando éramos o reflexo exacto um do outro. Toca-me o rosto com o teu nome, ou pousa-o sobre as mãos; debruça-te para dentro de mim e deixa que o segredo do tempo fulmine os ossos."

Sigurhead

domingo, março 09, 2008

cavalo à solta















Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante
da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente
a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Minha laranja amarga e doce
Minha espada
Poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego
Por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada
No meu peito

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo
corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Minha alegria
minha amargura
Minha ousadia
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.


Ary dos Santos

quinta-feira, março 06, 2008

triste

Triste até à tarde e depois menos. Feliz à noite, até me deitar. E depois triste na manhã seguinte. E toda a tarde, até me deitar. Feliz quando acordo, atordoado, sem saber como é que me sinto. Triste quando não adormeço. Mas feliz na manhã seguinte. Com o ódio à felicidade que me engana e não me deixa fugir. Feliz como um fósforo. Triste a vida inteira, mas dado ao dia seguinte.

Miguel Esteves Cardoso

vem














Vem ver-me antes que morra de amor – o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer – mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite –
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como o músculo tenso
escondido sob a pele – mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa –
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.

Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, março 05, 2008

my fake plastic love