domingo, setembro 30, 2007

casa










Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

David Mourão Ferreira

quarta-feira, setembro 26, 2007

poema










O meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, setembro 21, 2007

...

See the stone set in your eyes
See the thorn twist in your side
I wait for you

Sleight of hand and twist of fate
On a bed of nails she makes me wait
and I wait
without you

With or without you

Through the storm we reach the shore
You give it all but I want more and I'm waiting
for you

With or without you
I can't live
with or without you

And you give yourself away...

My hands are tied
My body bruised
She's got me with
nothing to win
and nothing left to lose

I can't live with or without you

With or Without You, by U2

quarta-feira, setembro 19, 2007

learn




Learn to live,
learn to love
Learn to feel
happy
Learn to recognise
Where the joy lies

Learn to sing,
learn to move
Your foot tapping on the side
You’ve been watching them
For all of your life

And don’t let those moments
Pass you by
You set your slightest step
To the inside

It’s another year
You’re still around
Can I touch you to make sure
How you tire of waiting for me

Don’t ever get tired
Of waiting for me
I’ve been wanting to
All this time

You set your slightest step
To the inside

Tindersticks, Don't ever get tired

quarta-feira, setembro 12, 2007

A aventura do coração

«É mentira que nada desaparece e tudo se transforma. As pessoas desaparecem. As coisas desaparecem. As ideias desaparecem. E o resto? O resto, que é que interessa? Daquilo em que se transformam as pessoas e as coisas e as ideias que desaparecem nem vale a pena falar. Aquelas que sobrevivem, que de algum modo continuam, vivem, reaparecem transformadas numa sombra do que era. Não são as mesmas. São outras. São piores.

O que acontece é triste: vamo-nos habituando à ausência das pessoas e das coisas que desaparecem. Mais triste ainda: desabituámo-nos de encontrá-las. Tudo isto é triste porque é uma coisa que o coração não é capaz de aprender.

Mesmo quando sabemos que uma coisa vai acabar mal, ou não vai chegar a acontecer, o coração acredita, o coração espera, o coração engana.

O coração é estúpido. Não há uma única coisa boa que se possa dizer acerca dele. Torna-nos bons, mas é uma bondade que nos faz entristecer. Quando nos põe felizes é por um ou dois momentos. E nunca se conheceu alegria que parecesse verdadeira. A alegria nunca é constante, nunca é segura. Desprende-se do dia-a-dia. Não nos deixa neste mundo. A alegria é um estado à parte, que ninguém consegue tornar real. É como um filme em que se está. Mesmo para lembrar a alegria é difícil. Há qualquer coisa na alegria que não cola.

Ser bom é estar aberto à infelicidade. Sendo bom, quase tudo o que vemos nos dá pena. O mundo é um acaso injusto, onde o que dá mais nas vistas é a falta que as pessoas sentem. Cada alma, cada corpo mostra a falta que lhe faz. Está escrita. É mais triste quando a condição de cada um é tão claro que se vê nitidamente, no rosto e na roupa, a pessoa ou coisa que mais falta lhe faz. Somos todos transparentes. Por baixo, vê-se aquilo que não temos.

Como num pobre se vê a falta de dinheiro, como num faminto a falta de comida, como num doente a falta de saúde, também nas outras pessoas se vê, na maneira como se movem e como falam, aquilo que querem e não têm. Quando se é bom vê-se tudo mais bem visto. Aqueles que têm coragem e que fazem por ajudar os outros, nas ausências mais óbvias e mais difíceis de suportar, acabam por arranjar uma nova infelicidade, que é compreender o pouco que podem.

Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O Homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.

Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.

Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada Homem tem um corpo de Homem e o coração de um deus. É na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo de ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofre duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.

Quem é triste e mau julga que há quem seja feliz. Tem inveja dos outros ou acha-se com menos sorte do que eles. De qualquer modo, ao sentir raiva ou desprezo perante quem supõe estar melhor do que ele, aliviando assim a alma, desculpabilizando-se e consolando-se com o azar dele, essa pessoa perde para sempre a companhia dos pares e a compaixão pelos menos felizes. Os maus podem ser mais felizes mas são tristes sozinhos, também.

A tristeza dos outros torna-nos iguais e faz-nos companhia. Também nos aproxima a pena daqueles que parece ter mais razões para estarem mais tristes do que nós. Para podermos privar dessa proximidade, que não alegra mas ao menos banaliza a nossa tristeza, temos de ser bons.

É fácil ser-se bom porque o coração é estúpido. É fácil ser-se fiel a um amor, ou leal a uma ideia, ou bom amigo. É tão fácil como estar triste. Em Portugal é mais fácil ainda. A tristeza vê-se melhor. Entra-se num café e pode-se dizer ao empregado que se está triste. Ou então é ele que pergunta, ou quem diz. É o melhor país do mundo para quem esteja regularmente triste.

Odeio a mania moderna de dizer mal da pena. Cada um diz que não quer que se tenha pena dele. Porquê? Quando eu estou muito triste, como agora, gosto que tenham pena de mim. Ter pena é só uma maneira de dizer "Eu também sou assim". O coração do homem do café é igual ao meu. A pena faz parte do pouco que se pode fazer. Nenhuma tristeza verdadeira se pode "resolver". Como um mal de amor não tem cura, ou a traição de amigo, ou a morte de quem se quis, a única coisa que se pode fazer a uma tristeza é acompanhá-la. Acompanhá-la e esperar.

A pena faz parte do pouco que se pode fazer. Num mundo ocupado por ausências, a saudade é a experiencia principal. A saudade é mais corriqueira que as bicas que bebemos, mais chata e demorada que o trabalho, tão inescapável e irresolúvel como o envelhecimento. É banal. Dói como uma carga de pancada, mas é a coisa mais simples do mundo.

A maneira de reagir à saudade e à tristeza é ter um coração bom e uma cabeça viva. A saudade e a tristeza não são doenças, ou lapsos, ou intervalos, como se diz nos países do Norte. São verdades, condições, coisas do dia-a-dia, parecidas com apertar os atacadores dos sapatos. É banalizando-as as acompanhamos. Um sofrimento não anula outro. Mas acompanha-o. Para isto é preciso inteligência e bondade.

Aquilo que nos resta são as pequenas alegrias. No contexto de tamanha tristeza e tanta verdade tornam-se grandes, por serem as únicas que há. Não falo nas alegrias que passam, como passam quase todas a paixões.

Falo das alegrias que se tornam rotinas, com que se conta: comprar revistas, jantar ao balcão, dormir junto do mar, dizer disparates, beber de mais, rir. Coisas assim. São essas coisas – entre as quais o amor – que não se podem deitar fora sem, pelo menos, morrer primeiro.»


 

Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, setembro 11, 2007

matéria

"Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência."

Inês Pedrosa in Fazes-me Falta

longe













Há uma gramática aberta
no teu corpo, e soletro cada palavra
que o teu olhar me oferece.

Limpo as sílabas que te
escorrem pelo rosto com um lenço de
vidro, descobrindo a tua transparência.

E sais de dentro de um pó de
advérbios, para que eu te dê um nome,
e a vida volte a correr por ti.

Nuno Júdice

sábado, setembro 08, 2007

tu choravas...














Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
- riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós
existiamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e
zumbiam nos meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida,
entrando devagar, muito devagar e
acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.

Albano Martins

sombra




Olho-te e não me vês...
Eu sento-me onde acho
que vai estar a tua sombra...
Mas não me vês.


Maria do Rosário Pedreira

silence is easier

Is there a time
for keeping a distance
A time to turn your eyes away
Is there a time
for keeping your head down
For getting on with your day

Is there a time
for kohl and lipstick
A time for cutting hair
Is there a time
for high street shopping
To find the right dress to wear

Here she comes
Heads turn around
Here she comes
To take her crown

Is there a time
to walk for cover
A time for kiss and tell
Is there a time
for different colors
Different names you find it hard to spell

Is there a time
for first communion
A time for east 17
Is there a time to turn the mecca
Is there a time to be a beauty queen

Here she comes
Beauty plays the crown
Here she comes
Surreal in her crown

Dici che il fiume
Trova la via al mare
E come il fiume
Giungerai a me
Oltre I confini
E le terre assetate
Dici che come fiume
Come fiume
Lamore giunger
Lamore
E non so pi pregare
E nellamore non so pi sperare
E quellamore non so pi aspettare

Is there a time for tying ribbons
A time for christmas trees
Is there a time for laying tables
When the night is set to freeze

U2 and Pavarotti

quarta-feira, setembro 05, 2007

A aventura da memória

«O que é a memória? Já não me lembro. Lembro-me de ter estudado e lembro-me da cor da capa do livro de Aristóteles. Lembro-me da rapariga que estava sentada ao meu lado. Mas não me lembro de mais nada. Porque é que eu me lembro de vinte marcas de desodorizante e não me consigo lembrar dos olhos da minha mãe? Os desodorizantes interessam-me? Não. Mas a minha mãe faz-me falta.
Porque é que me lembro exactamente das caras que vi no comboio a semana passada e não me consigo nunca lembrar exactamente da cara da pessoa de quem mais gosto? O amor e a memória conspiram juntos. É por não nos conseguirmos lembrar de quem amamos que temos de estar sempre junto dela. A olhar para ela. Cada vez que a vejo sou apanhado de surpresa. Baque do costume. Já chateia. É sempre diferente, mais bonita, mais interessante do que eu pensava.
Porque é que eu não me consigo lembrar da cara dela? Já tentei. Já fiz tudo. Fiquei acordado a tentar aprendê-la de cor. Estudei-a. Sobrancelha por sobrancelha. Dez minutos para cada uma. Tirei apontamentos. Escrevi-a num caderno. Tirei-lhe fotografias. Pendurei-a na parede. Decorei o meu quarto (e os interiores do meu coração) com ela, mas mesmo assim não a consigo ver. No momento em que tiro os olhos dela, desaparece. Os meus olhos prendem-se a ela, mas os olhos dela não param dentro de mim. Isto assusta-me. Ela impressiona-me tanto. Mas não deixa impressão. Deixa um vazio. É isso que o amor faz. Troça de nós. Ou se calhar ela é como um bombardeamento que presencio e esqueço. Como um soldado cheio de medo, escondido na minha trincheira, varro-a da memória. E depois ela volta quando começo a sonhar.
A memória não é uma vontade. Não me lembro do que quero. Lembro-me do que não quero. Odeio ser assaltado por uma reminiscência. Apetece-me resistir, não entregar o que ela pede, chamar a polícia. Mas somos todos uns bananas da lembrança. Não atacamos a memória: somos atacados por ela. Passamos por um perfume e mergulhamos. Passam uma cantiga na telefonia e caímos. Passa um nome na rua e passámo-nos.
Devíamos provocar a lembrança. Estou aqui sentado e resolvo lembrar-me dum amigo meu que não vejo há muito tempo. Vou buscar as cartas que me escreveu. Abro uma garrafa do whisky que ele costuma beber. Ponho o disco que ouvíamos. E lembro-me. Assim lembrar faz bem. Faço um esforço. Quando o conheci? Quantas vezes nos rimos das mesmas coisas? Assim lembrar é feliz. Quando somos apanhados desprevenidos é que nos dói. Velha questão. Como é que eu torno as minhas saudades em lembranças?
Faço de conta que alguém está à procura dele. Faço de conta que alguém pergunta por ele. Como num interrogatório. Tudo o que pode depender de um pormenor. Da cor de uma camisola. Da hora e da temperatura do dia. “Tente lembrar-se!” Quando me lembro assim dum amigo meu, procurando com toda a minha lembrança dele, fazendo força na cabeça, faço fé no meu coração e torno-me testemunha da amizade dele.
Não é isto que fazemos. Somos espontâneos. Só nos lembramos do que nos ocorre. Bestas. Molengas. Achamos que a memória não se deve forçar. Friques. Esprememos os miolos em exames absurdos sobre assuntos que esquecemos logo de seguida, mas quando se trata da nossa alma somos incapazes de fazer o mínimo de esforço. Ficamos de perna aberta perante a sucessão das coisas. Parecemos daqueles patos de barraca-de-feira à espera de sermos atingidos pelos disparos. Digo “Aquele filme fez-me lembrar o João.” Fez-me. Obrigou-me. Preferia ter sido eu a decidir-me lembrar. A lembrança, que é de todos os estados de alma o mais bonito, por fazer pouco do tempo e trocar as voltas todas à realidade, deveria ser uma coisa que nós fizéssemos, por vontade, por amor, por hábito. Não deveria ser uma coisa que nos fosse feita.
Porque é que somos tão passivos na maneira de nos lembrarmos? Porque nos põe triste a lembrança da felicidade. Porque, muito portuguesmente, só nos ocorre a lembrança da felicidade quando estamos afundados na mais terrível tristeza. É com a primeira lágrima que vem a imagem do primeiro sorriso. Lembrar torna-se uma maneira de nos martirizamos. E quanto mais pensamos “Ai, eu fui tão feliz!” mais tristes nos tornamos. Nestas circunstâncias, a lembrança é apenas uma das modalidades portuguesas de termos pena de nós próprios.
Devíamo-nos lembrar da felicidade quando estivéssemos felizes. A lembrança fica bem à alegria. Em vez de nos entregarmos completamente ao momento de alegria, com aquela ganância que acaba por ser entre nós uma forma de desespero, deveríamos deixar um pouco de nós, ir um pouco atrás, ir buscar outro momento passado, outra passada alegria. Quando dois amantes estão a rir-se, nos braços um do outro, nariz incapaz de largar nariz, é lindo quando um deles diz “Lembras-te?”
Há outra coisa que não está certa em nós. Quando alguém desaparece da nossa vida, somos sempre apanhados desprevenidos. Sentimo-nos arrependidos de não ter passado mais tempos com ele, de não ter ido mais longe. Há pessoas, como os nossos pais, que sabemos irão morrer antes de nós. E sabemos de antemão que nos vai doer. No entanto, comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como que se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar deles como da vida.
Devemos tentar aprender de cor quem amamos. Tentar fixar. Armazená-las para o dia em que nos fizerem falta. São pobres as maneiras que temos para o fazer, é tão fraca a memória, que todo o esforço é pouco. Guardá-las é tão difícil. Eu tenho um pequeno truque. Quando estou com quem amo, quando tenho a sorte de estar à frente de quem adivinho a saudade de nunca mais a ver, faço de conta que ela morreu, mas voltou um único dia, para me dar uma última oportunidade de a rever, olhar de cima a baixo. Fazer as ultimas perguntas que faltou fazer, reparar em tudo o que não vi; uma ultima oportunidade de a resguardar e de a reter. Funciona.
A memória é uma desarrumação. Deixada ao acaso, torna-se num armazém de retalhos. Se deixarmos a memória à vontade dos fregueses, nunca mais encontramos o que queremos. Veja só as coisas de que se lembra. Escreva num papel. Tanta inutilidade! Como é possível encontrar esse dia quente no rio que procura entre tantos nomes de cacilheiros, cabeçalhos de jornais e caras de cançonetistas? A nossa memória é um monte de lixo onde estão as luzes da nossa vida. Já que não nos conseguimos esquecer de tantas ninharias, pormenores irrelevantes, restos de estudos obsoletos – as apófises dos pombos e os sistemas de clivagem, a paisagem de Vila Franca, os invólucros de rebuçados – devíamos fazer um esforço grande para nos lembrarmos do que nos importa e encanta. Enquanto está a acontecer. Bem sei que a magia não é memorizável. Mas quando se repara nela com propósito e gratidão, fica a poeira do momento. E a poeira do momento é melhor do que nada.
A memória em si não é nada. Não é bonita nem feia, nem útil, nem inútil. Ia a dizer que é o que se quiser mas nem isso. É uma maneira de dar sentido ao que se vive. É uma coisa que fazemos. Em nome do que trazemos na alma, e por causa do amor, faz sentido fazê-la o melhor que podemos. Agora há alguém que seja capaz de me explicar porque é que eu não sou capaz de me lembrar da cara do meu amor? A memória é uma coisa que não lembra ao diabo.»


Miguel Esteves Cardoso, in As minhas aventuras na Republica Portuguesa

segunda-feira, setembro 03, 2007

...

Nem sempre uma música é uma tela pintada, onde vemos apenas o que é suposto ver e onde resta muito pouco para a imaginação.
Por vezes, aparecem pérolas (leia-se músicas) como esta, como se de uma paleta cheia de cores se tratasse, prontas a serem experimentadas e misturadas para que cada vez que se ouça música, uma nova paisagem se crie.
Qualquer que seja o momento, qualquer que seja o pintor.


(Andvari by Sigur Rós)

menina...













Menina,
em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras
de aproar

Menina,
em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre
sem parar

Menina,
em teus olhos vejo espelhos
e em teus cabelos
núvens de encantar
e em teu corpo inteiro sinto o feno
rijo e tenro
que nem sei explicar!

Tenho no rio grande o mundo inteiro
e sinto o mundo inteiro no teu colo

Aprendi
a amar
a madrugada
que desponta em mim
quando sorris

És um rio cheio de água lavada
e dás rumo
à fragata que escolhi.

Se houver
alguém que não goste,
não gaste,
deixe ficar.
Que eu só por mim
quero-te tanto
que não vai
haver menina
p'ra sobrar...

Menina dos Olhos de Água, Pedro Barroso