terça-feira, fevereiro 26, 2008

um dia...















Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. A tua pele será talvez demasiado bela. E a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o Inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela. Sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.


José Luis Peixoto

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

a dança















Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.
Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,
a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

Pablo Neruda

procuras-me?







Procuras-me?
Se eu me perder de mim encontras-me?
Perguntas àquela estrela
Que guardou os nossos segredos
Onde me levaram os meus passos
Que me afastaram dos teus braços?
Procuras-me ao cair da noite
Quando as sombras se instalam
Quando o escuro se espalha
Onde estou que não me vês?
Se eu me perder de mim encontras-me?
Estendes-me a mão, abres-me o peito
E guardas-me de tal jeito
Que nunca mais me perderei de mim?


Encandescente

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Who wants to live forever...

Can feelings live forever?

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

calor










se fechar os olhos
sinto o teu toque

E é tão quente

que até o verão se envergonha...


in
Escrito na Areia

domingo, fevereiro 17, 2008

Sometimes, our dreams can turn into the worst nightmares...an then, we must find another way...

canto e sonho















Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nús e suados.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

you

gramática















Não entendo a tua gramática. Todos os erros de semântica possíveis foram cometidos por ti. Tu eras o meu sujeito. Os erros de concordância já eram extremos, o nosso pretérito era quase perfeito e teríamos um futuro do presente, não fosse a tua conjunção com essa terceira pessoa do singular. Não somos mais a primeira pessoa do plural, agora apenas eu, tu, vós. Tu eras o discurso directo dos meus sonhos, a cedilha da minha maçã, a hipérbole dos meus sentimentos. Dos adjectivos, os mais belos, dos pronomes, os subjectivos. Mas as antíteses do teu comportamento transformaram-se em metáforas. E num acto indefinido entre o ódio e a loucura, no indicativo de que já não se ama como outrora, de um imperativo afirmativo ecoou o grito. Assim acabou o nosso verbo de ligação: um hífen colocou-se entre nós, e deu-se a divisão silábica.

...

...
















Não digas ao que vens. Deixa-me

adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o resto da viagem. Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo - é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja - morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

Maria do Rosário Pedreira

Run...

Sometimes, I just want to run...to a silent and quiet place.


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

...






Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso.


Maria Teresa Horta

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Breathe in, Breathe out...

I miss you...

Let me breathe...

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

coisas simples















Dá-me a lua, tira-a do céu
E pousa-a na minha mão.
Dá-me um dia de sol
Quente e brilhante
Oferece-mo quando eu acordar.

Dá-me um rio
Tira-o do leito, muda-lhe o curso
Fá-lo correr à minha porta
E dá-me um rio.

Não te peço que me ames.
Só te peço coisas simples
Um acordar cheio de sol
Um rio à minha porta
E a lua nas minhas mãos.

Encandescente

passos em volta















Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida e amo o passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia não existe. Quem está longe e me ama ou possui um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou quem me odeia está longe e apenas tem algumas palavras sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturidade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas. O poema que agora escrevesse diria como estou pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de tudo quanto auxilia um homem no seu ofício a ferocidade dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a expectativa. Morrerei com a minha visão, o pressentido segredo das coisas. E é na morte que se principia a ver que o mundo é eterno.


Herberto Hélder