quarta-feira, dezembro 27, 2006

mãos

“Ela era o meu mundo. Nesse tempo, quando estávamos juntos: era noite e caminhávamos pelas ruas (…) Durante esses passos, a voz dela dizia-me que eu tinha direito a alguma paz. E caminhávamos pelas ruas, atravessávamos sombras. Às vezes, os nossos cotovelos tocavam-se. Eu fixava com toda a força dos sentidos no ponto em que o meu cotovelo, por um instante, a tocava. (…) Como eu, também ela sentia esses instantes mudos que iluminavam, eclodiam, incendiavam. Nesse tempo, nenhum de nós seria capaz de utilizar palavras para falar desses instantes ou das ondas que nos atravessavam. Nesse tempo, chegávamos à porta da casa dela e ficávamos sem saber o que dizer ou como movimentarmo-nos. Baixávamos o olhar, os nossos rostos enchiam-se de sombras e, a partir do interior invisível dessas sombras, ríamo-nos, fingindo rirmo-nos, porque não sabíamos o que dizer ou como movimentarmo-nos. Depois, para nos despedirmos, estendíamos os dedos um para o outro. Não era um aperto de mão, não era nada, era nós a estendermos os braços um para o outro, era as nossas mãos abertas e as pontas dos nossos dedos a tocarem-se no ar, quando as nossas mãos começavam já a descer e a separar-se. Depois, houve uma noite em que nos beijamos no rosto. Fechei os olhos quando senti com os lábios a pele da sua face, o cheiro do interior dos seus cabelos ondulados. Depois, houve outras noites. Não foi planeado o instante em que não fiz o movimento que sabia exactamente como fazer: que bastaria deixar o meu pescoço fazê-lo: e em que os nossos lábios se encontraram. Os nossos lábios a arderem. A minha mão a segurar-lhe a nuca: o peso e a forma da sua cabeça. Quando os nossos lábios se separaram, os olhos dela não largaram os meus. Os meus olhos a fugirem e os olhos dela, sérios, a procurarem-nos. Os meus olhos a não conseguirem fugir mais: um sorriso. Os olhos dela a verem-me e a sorrirem também. Depois dessa noite, começámos sempre a caminhar de mãos dadas.”

José Luis Peixoto, in O Cemitério de Pianos

domingo, dezembro 24, 2006

Feliz Natal (II)


Christmas is (like) love: is, actually, all around.

Feliz Natal (I)


Além dos tradicionais valores natalícios como a solidariedade e fraternidade, entre muitos outros, apoderam-se de mim, uns instintos, há que dizê-lo, pirosos. Gosto do Natal e se for piroso, tanto melhor. Arvores de Natal pirosas, luzes pirosas, enfeites pirosos, pais-natais pirosos. Natal com muito design, arvores de natal e pais-natal estilizados, também gosto mas não me convencem. A piroseira, ou se preferirem, o kitsch, também tem o direito a existir. Haverá melhor altura para isso senão no Natal?
Na música, também não podia ser excepção, e consumo, moderadamente, qualquer acorde que com o Natal se identifique, incluindo piroseiras como esta (coisa que na ressaca de Janeiro, nego absolutamente e enfio na gaveta, juntamente com todos estes instintos pirosos!)
Para terminar de maneira airosa, depois desta infeliz confissão, há que dizer que por entre todo kitsch que esta música respira transpira, salva-se uma mensagem contra o Natal comercial, em favor do que, no final de contas, se resume o Natal, ou seja, Amor.

respiro

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, dezembro 14, 2006

projecto











Desta vez vou escrever-te um poema que vai ser
um poema de amor, mas que não é apenas um poema de amor. O
amor, com efeito, é algo que não cabe num poema; pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor, sobretudo quando te abraço, e
sinto os teus cabelos na boca, agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão, a água fresca corre pela
garganta. A isto, em retórica, chama-se uma comparação; e pergunto
o que é que o amor tem a ver com a retórica, ou por que é
que o teu corpo se teme de transformar numa metáfora - rosa,
lírio, taça, qualquer objecto que tenha, na sua essência, um
elemento que me possa levar até ele, como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem, ver em ti o que não és,
nem tens de ser, ou ainda transformar-te num lugar comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor. Assim,
este poema de amor é, mais do que um poema de amor, um
exercício para escrever um poema de amor - mas um poema de amor a
sério, sem comparações nem metáforas, só contigo, com o
teu corpo, com a tua voz, com os teus cabelos, com aquilo que é
real, e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto de
um poema de amor em que o amor, finalmente, deixa de ser
o objecto único do poema, que se preocupa acima de tudo com
a retórica, as imagens, o equilíbrio das formas. Mas, pergunto, não
é o teu corpo uma flor? Não é a tua boca uma rosa? Não são lírios os teus
seios? Tudo, então, se transforma: e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida, a abstracta metamorfose das emoções. O
resto, meu amor, és tu - e é por isso que o poema de amor que te
escrevo não é, finalmente, um poema de amor.


Nuno Júdice

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Happy Birthday

segunda-feira, dezembro 11, 2006

universal is here

abstracção













Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.

Nuno Júdice

domingo, dezembro 03, 2006

Fácil de entender...

No Amor, como na amizade, como em tudo, será assim tão complicada a comunicação? Por vezes parece que a nossa capacidade intrínseca de comunicação é eclipsada por uma outra maior que exerce em nós precisamente o contrário...animais estranhos estes...Continuo a acreditar que a maior parte das vezes o olhar e as acções dizem mais que mil palavras...porque falar nem sempre implica a emissão de vocalizações...Precisamos apenas de parar para sentir...
.
Talvez por não saber falar de cor, imaginei.
Talvez por não saber o que será melhor,
aproximei. "O meu corpo é o teu corpo, o
desejo entregue a nós". Sei lá eu que queres
dizer... Despedir-me de ti, adeus um dia
voltarei a ser feliz... Talvez por não saber
falar de cor, aproximei... Triste é o virar de
costas o último adeus, sabe Deus o que
quero dizer. Obrigado por saberes cuidar de
mim, tratar de mim, lhar para mim, escutar
quem sou... E se ao menos tudo fosse igual a ti.
.
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu
amor, já não sei se sei o que é sentir. Se por
falar falei, pensei que se falasse era mais fácil
de entender...
É o amor que chega ao fim, um final assim
assim é mais fácil de entender...

Fácil de Entender - The Gift